quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Galo na História

É fato que a publicidade acompanha as tendências do mercado e os fatos históricos, mas nunca houve casamento tão perfeito como o realizado entre a Propaganda e a Moda. Quase que, como um romance a lá Romeu E Julieta, porém, com um final aparentemente feliz e um casamento que pode ser considerado no mínimo “turbulento”, a Moda se aliou a Propaganda desde os seus primeiros passos.

Tudo não passava de uma brincadeira, quando a moda brasileira foi apresentada oficialmente à Publicidade na década de 20, mas foi a partir daí que um antigo flerte cresceu e se tornou um enlace de sucesso. Nessa década marcada por revoluções no mundo feminino, a Moda passou a ser um marco de independência e liberdade e nesse momento a Publicidade cumpriu seu papel ousando em mostrar a imagem de uma nova mulher que deixou de lado os antigos espartilhos e começou a usar roupas mais soltas, com ares mais frescos e modernos e à mostrar os tornozelos, antes reclusos sobre diversas camadas de saias e ceroulas. Foi literalmente um “desbunde” nas ruas da moderna, porém conservadora São Paulo quando começaram a surgir as tendências trazidas de Paris por uma estilista aparentemente desconhecida. Nada mais nada menos do que Coco Chanel, uma das mulheres que mais soube usar a mídia como arma a seu favor e à favor de suas idéias.

Após significantes mudanças, o sonho do American Way of Life se foi, e junto com ele também se foi a ousadia da Propaganda Fashion, que durante os anos 30 passou praticamente despercebida entre os anúncios de uma moda praticamente funcional e sem vida, haja visto que nessa década o mundo mergulhou na chamada Grande depressão e em seguida na Segunda Guerra Mundial. Nesse período as grandes maisons parisienses foram praticamente banidas e as poucas que ainda sobreviveram tiveram que se adaptar às novas regras: ou continuariam no setor da alta-costura tendo como clientes apenas as esposas dos militares e generais, ou adaptariam suas coleções para uma moda mais masculinizada e criada a partir dos poucos tecidos que podiam ser usados no período da guerra. A grande maioria optou pela segunda opção, que já havia tido uma premissa com a Chanel no final dos anos 30. E como em tempos de guerra o orçamento se torna escasso, mais uma vez a Propaganda de Moda ficou limitada aos catálogos, que eram feitos pelas fábricas que começaram a Produzir peças em série para atender a uma demanda cada vez mais pulsante: a de, apenas, se vestir.

Porém ao final da Guerra a moda retoma seu devido lugar de destaque e leva consigo sua grande companheira de jornada a Publicidade, quando em 1947 Christian Dior apresentou em Paris sua nova coleção, cheia de babados, pregas, adereços e brilhos, que ficou conhecido como “New Look”, e foi também o prenúncio de uma mulher extremamente feminina que reinaria absoluta nos anos seguintes.

Seguindo o caminho de mãos dadas, a moda e a Publicidade chegam a uma década inesquecível, a de 50. Extremamente marcada pela feminilidade e pelas criações opulentas de seus principais estilistas, essa foi uma década de recuperação do vínculo matrimonial de nossas vedetes, pois as maisons que até então estavam fechadas, reabriram, as mulheres que eram práticas, mudaram e a Publicidade estava no auge com o lançamento de uma linha que revolucionou o mundo da moda: a maquiagem. Empresas como a Revlon, Helena Rubinstein, Elizabeth Arden e Estée Lauder, gastavam muito em publicidade, era a explosão dos cosméticos. Sombras, batons, rímel, e o indispensável delineador de olhos e bocas, que antes eram apagados e agora, mas do que nunca, voltam a cena como força e demonstração de feminilidade.

Mais novidades vieram no enlace da Publicidade com Moda, pois mais do que a mudanças de estilo, a década de 50 veio marcada pela introdução de um meio de comunicação de massa que, anos mais tarde, viria a ser o meio mais assistido pela população do planeta: a televisão. Junto com ela veio a revolução, o som unido à imagem, que “vale mais do que mil palavras”. Nesse momento uma enxurrada de publicidade invadiu as telas da TV que apesar da pouca expressividade devido ao preço do aparelho, conseguia atingir bem seus objetivos. Eram maquinas de lavar, aspiradores de pó, enceradeiras, uma explosão de tecnologia. E claro, a Moda não ficou de fora, pois os principais ateliês de alta-costura e as principais maisons colocaram no ar (ainda que ao vivo) suas criações, que além de estar em programas específicos estavam também estampados nas vestimentas das principais artistas e atrizes que marcaram os anos cinqüenta: as bela Marilyn Monroe e a estonteante Brigitte Bardot.

A cada época uma nova tendência acompanha o mercado, e nos anos que seguiram a história voltou a se repetir, e foi nos anos 60 que se deu inicio ao que se chama de democratização da moda, onde esta passou a ser artigo dos mais velhos e o estilo de liberdade propagado pelos cantores da época nas divulgações de seus discos não combinavam com tendências ditadas por algo ou alguém. A moda então era versatilizar, desafiar a Propaganda feita pelas maisons e ateliês. E não é que a idéia funcionou? Nas décadas seguintes o casamento entra a Moda e a Propaganda passou a ser reforçado pela contradição criada por jovens cada vez mais ativos, em uma sociedade cada vez mais ágil. Sendo assim, a Propaganda passou a se ramificar e a “conversar” com o seu público dizendo o que ele queria ouvir na hora exata, sem deixar de lado, é claro, seu papel com a parte mais conservadora da sociedade.

Anos mais tarde, após mudanças radicais como o lançamento oficial do Jeans como tendência pela marca Calvin Klein na década de 70 e os polêmicos anúncios de Oliveiro Toscani para a Beneton que tiveram início no ano de 1982, o casamento da Moda com Publicidade se mostra cada vez mais firme no seu propósito, sendo fortalecido a cada dia por anúncios cada vez mais atrativos e que desempenham além da nobre função de divulgar também a função de conscientizar e demonstrar a preocupação do homem com os problemas e questões do meio que o cerca, como mostram as recentes campanhas da grife de Jeanswear Zoomp, onde os criadores simularam situações em que os modelos, vestidos com as calças da marca, por exemplo, “limpam” as escadarias do Palácio do Planalto ou lavam a bandeira nacional com sabão em pó. Na mesma linha de trabalho o publicitário e fotógrafo Oliviero Toscani mais uma vez chocou o mundo com o recente anuncio para a No – I – Lita, no qual ele mostra a modelo Isabelle Caro, nua, com 31 kg e 1,65 metros. A propaganda foi proibida em vários países, mas iniciativas como essas mostram a preocupação do ditador mundo da Moda com as conseqüências de seus atos.

Vale lembrar que todo casamento passa por suas crises, altos e baixos, felicidades e infortúnios, porém analisando de maneira cética e desprovida de qualquer preconceito, o enlace matrimonial parece estar perfeito. Resta saber se ambas as partes estão felizes na relação, pois modificando o ditado “em vida de marido e mulher ninguém intromete com a colher”.

Wagner.

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